Friday, November 18, 2005

O Brasil e o mundo

Circula o seguinte argumento: não adianta comparar a economia brasileira hoje com a economia brasileira ontem; o que é crucial é que o Brasil está crescendo mais devagar que o mundo, e, mais especificamente, que os outros países emergentes.

Errado.

Em toda comparação, o que interessa é a ficção que ela supõe. Se você diz que o Chile nos últimos vinte anos cresceu mais que o resto da América Latina, está sugerindo a ficção "Se os outros países latino-americanos tivessem feito o que o Chile fez, teriam crescido mais". No caso, a comparação é plausível. O que o Chile fez os outros poderiam ter feito.

Mas se você diz "o Brasil está crescendo menos que os EUA", não está dizendo nada de útil. A ficção sugerida é patética: "Se o Brasil fosse o emissor da moeda mundial, a única hiperpotência, o maior PIB do mundo, uma das economias mais competitivas do mundo, e fizesse Silicon Valley, teria crescido mais". Nada disso é remotamente plausível.

Vejamos portanto o caso dos países emergentes atuais que cresceram mais que nós, e julguemos se podemos, e, em especial, se queremos fazer o mesmo que eles:

Argentina e Venezuela: por acaso queremos ver nossa economia colapsar, cair 10, 15 pontos percentuais, só pra depois ter números maiores que nossos 3.5% atuais? Se não, esqueçam a comparação.

Rússia: alguém aí vai achar petróleo em quantidades obscenas? Então pronto.

China e Índia: alguém quer reduzir nossos salários ao nível deles? Sei lá, do jeito que a coisa anda, é possível que tenha alguém, mas eu não.

Claro, no caso de China e Rússia, é crucial que a mão-de-obra é barata é também razoavelmente educada. Mas criticar o Brasil por isso é criticar o governo de 20 anos atrás. Mesmo se estivermos sendo bons nisso, isso não bate no crescimento por muitos anos ainda.

E o caso da elite altamente educada da Índia é uma opção que devemos continuar rejeitando. Nossas universidades são ruins, mas seria melhor se a gente fizesse só uma realmente world class e deixasse 50% da população analfabeta? Eu não acho.

Nosso índice de crescimento tem sido (já antes do Palocci) razoável para um país pobre que gasta, para os padrões internacionais, bastante com o social. Falta gastar melhor, é claro, há muita coisa a fazer, mas nessas coisas é melhor comparar você com você mesmo.

O resto é vontade de se botar pra baixo, complexo de vira-lata, como diria Nélson Rodrigues.

3 comments:

Ed said...

Pois é, alguém diz "No ano passado METADE da população brasileira já estava ABAIXO da linha média de inteligência!!! Onde vamos parar?" e tem gente que cai nessa.

Parece que botar o país pra baixo é muito mais aceito socialmente do que levantar a bola do país.

Guto said...

Presidente,
eu concordo com o seu argumento, no que ele tem de mais fundamental. Mas discordo no metodo da argumentacao e acho que voce se contradiz. Veja bem, eu concordo com voce que o Brasil esta progredindo, que isso e bom, e que brasileiro adora chutar si si proprio. Mas por outro lado, voce deu excelentes exemplos da utilidade de comparacoes como metodo de explicitar diferencas e coisas indesejaveis: comparar com China, Russia, India, Venezuela etc e uma boa porque vemos que estamos melhor de maneira geral. Comparar com os EUA e bom porque olhando uma situacao muito diferente a gente desenvolve instrumentais pra entender nossa propria situacao. Nao e? ;-)

Na Prática said...

Grande Guto!

Pode ter dado essa impressão, mas o argumento poderia ter sido dado pelos outros países, também. Por exemplo, digamos que o Brasil estivesse crescendo mais que os chineses. Os chineses poderiam objetar que não tinham como fazer o que o Brasil fez, visto que na época em que o Brasil cresceu ela estava artificialmente isolada do mundo pelo Mao.

Enfim, é melhor limitar as comparações do Brasil com América Latina, talvez Leste Europeu.