Friday, February 09, 2007

Paulo Francis

Vou ser honesto com vocês: eu até hoje não entendi porque Paulo Francis é considerado um grande coisa. Não estou dizendo que não fosse: só que ninguém até agora me provou que era.

Certo, o cara escrevia bem, de vez em quando era engraçado, e, a crer na maioria dos textos que comemoram os dez anos de sua morte, devia ser um sujeito excelente para companheiro de farra e amizade, um sujeito bacana para ser seu chapa, que teve uma vida muito interessante. Também acredito que fosse culto, embora suas gafes culturais sejam também famosas e bem-documentadas. Teve o mérito de fundar o Pasquim, mas, não, nem todo mundo que fundou o Pasquim escreve bem pra cacete, não.

Enfim, embora tenha lido seus artigos durante alguns anos, não me lembro de absolutamente nada de importante que tenha lido neles pela primeira vez. Por isso fiquei com a impressão de que era um cara razoavelmente inteligente, que tinha razão contra a esquerda em uma série de coisas (e não em outras), mas que não merecia o destaque todo que tinha.

Expressei essa opinião para algumas pessoas que quase tiveram um enfarto. Contrito, procurei uns textos na Internet, que achei, novamente, razoáveis, espirituosos, mas nada excelente, longe disso. Li o livro do Daniel Piza sobre ele, descobri que ele fez mais ou menos o percurso político do James Burnham (de Trotsky a Reagan), o que também não me impressionou - não tive a impressão de que suas opiniões políticas, nem quando era de esquerda nem quando era de direita, fossem especialmente esclarecidas (se comparadas às de outros intelectuais à esquerda e à direita). Não li nenhum dos romances, talvez seja isso, mas conheço alguns fãs de Francis que não gostam dos romances. Enfim, ainda estou para ser convencido, mas permaneço sem preconceito.

Mas a turma que gosta está em polvorosa. No Wunderblogs (aquele pessoal meio de direita, alguns inteligentes, e com aquela pretensão toda que só se tem quando se acaba de se converter a uma causa), a festa está animada: vejam só, por exemplo, este post, e este.

O que eu queria é que em alguma dessas homenagens fosse citada alguma idéia ou frase do Francis que fosse realmente original. Até agora, não vi nada. As melhores homenagens pessoais foram as do Ivan Lessa e a do Ruy Castro.

Enfim, se alguém quiser me explicar o que ler do Francis, agradeço.

2 comments:

Amiano said...

Bom, eu não posso indicar nada do Paulo Francis, porque o que eu gostava dele eram exatamente as colunas às quintas e domingos no Globo. Eu gostava não porque fossem exatamente brilhantes (apesar de geralmente terem coisas inteligentes), ou porque fossem originais (apesar de muito bem informadas pra um crítico teatral - não é preconceito, mas ninguém tem que ler tudo o que é publicado). Eu gostava porque a máscara vestida por ele me fazia rir, e porque sempre foi bom ver alguém vociferando absurdos (às vezes bem razoáveis) contra vacas sagradas da esquerda e do nacionalismo dos anos 80-90. Era engraçado, e dava o que pensar. Chamar a Petrobrás de Petrossauro foi uma grande sacada, nem sei se foi idéia dele. Ele uma vez disse que para entender o Brasil a gente tinha que ler Nostromo, do Joseph Conrad. Ora, estava errado, porque o Brasil não tem nada a ver com o país imaginário descrito por Conrad. Mas ainda assim tinha um fundo de verdade, e eu vivo recomendando esse livro pros meus amigos.
Ah, desculpa pelo post longo que não respondeu nada!

Na Prática said...

Bom, está resolvido: se o Amiano disse que é bom, então é bom (podem confiar!). A propósito, sempre que no Amiano tiver recomendação de livro, se não for um daqueles "Aspectos secundários da escrita rudimentar meio apagada num muro que caiu enquanto a gente estava lendo na Umbria", podem conferir que é bom!