Thursday, August 16, 2007

Livrão: "Disgrace", de J.M. Coetzee


Certo, o cara já ganhou o Prêmio Nobel de literatura, o livro é de 2000, de maneira que não se trata de nenhuma grande descoberta da minha parte dizer que esse livro é realmente um espetáculo.

A Companhia das Letras evitou o falso cognato e traduziu como "Desonra", mas, se tivesse cometido e traduzido como "Desgraça", não estaria muito longe da história, não.

O livro conta a história de um professor sul-africano de literatura solitário e meio tarado que dá em cima de uma jovem aluna da faculdade. Dá certo. Após alguns encontros, em que o leitor fica meio na dúvida sobre o quanto foi assédio sexual e o quanto foi voluntário, a menina processa o cara por assédio, e ele protagoniza um momento memorável: após confessar ter feito mesmo a coisa, os administradores da universidade dizem que aliviam a barra dele se ele der mostras de que não apenas confessa como também está arrependido, sinceramente. Ele afirma que estabelecer a sinceridade de sua contrição não é atribuição de um tribunal, é uma matéria extraordinariamente complexa, e, por princípio, se limita a confessar. É demitido sem pensão.

Até aí, beleza.

Vai então morar com sua filha que virou fazendeira no interior da África do Sul. A menina é uma idealista, defensora dos direitos dos animais, e lésbica. O protagonista começa a participar da vida dela, desempenhar tarefas da fazenda, e quando parece que tudo vai mais ou menos, três negros entram na fazenda, roubam tudo, estupram a menina, trancam o cara no banheiro e tacam fogo nele.

Aí a coisa começa a piorar.

Há várias desonras em jogo: a desonra do próprio personagem, publicamente denunciado como velho sedutor de menores e demitido; a vergonha de sua filha estuprada; e, principalmente, a vergonha da África do Sul, um país inteiro em penitência, em desgraça, em vergonha, sendo lentamente absorvido pela África que o cerca (de dentro, inclusive). A extrema decadência humana do personagem principal, sua progressiva incapacidade de expiar seus erros, a falta de reconhecimento pelo pouco que consegue, e a progressiva adaptação à velhice, à deterioração; a desonra como a perda do direito de ter uma injustiça contra si reparada.

Um clássico sobre a busca incessante de bodes expiatórios para o sacrifício (na última cena do livro isso é claro), à maneira d' "A Mancha Humana", do Philip Roth, outro livraço, do qual me lembrei algumas vezes enquanto lia. Talvez seja até melhor, não sei.

Enfim, para quem tiver tempo para dedicar a um livro denso, eu recomendo.

3 comments:

Zé said...

Sugestão para o título do livro: "Melasco!".
Rapaz, esse eu não leio não! Ando até evitando assistir filmes "suaves"... É muito "fundo do poço"...

Na Prática said...

HAHAHAHA, esse é foda, mesmo. Que beleza.

Anonymous said...

Graças a este site, fui à Biblioteca Municipal requisitá-lo para ler e posteriormente apresentá-lo na disciplina de português..

Nao sei porquê, mas acho que a professora me vai mandar embora.. loool

há muita coisa deste livro que nao vou poder falar.. é muito mau em frente a uma professora.. hehehehe