Thursday, June 28, 2007

Livraço: "O Vulto das Torres", de Lawrence Wright



Esse é bom mesmo. Se você for ler, talvez seja melhor não ler isso aqui, vou contar bastante coisa.

O livro conta a história da Al Qaeda até o 11 de Setembro, e tem material inacreditável, incluindo até a reação do Osama enquanto as torres caíam (a cada uma que caía a turma da Al Qaeda celebrava e ele dizia, "espera", e levantava um dedo; a idéia era contar até cinco, mas o avião do capitólio não caiu). Mas a grande sacada do cara foi contar a história através dos personagens. Os principais são:

Sayd Qutb, o intelectual egípcio que deu a linha do moderno fundamentalismo islâmico, inspirando a Irmandade Muçulmana Egípcia. O livro começa com a narrativa da estadia de Qutb nos EUA, onde ele ficou chocado com, enfim, tudo aquilo que eu e você provavelmente achamos melhor na civilização ocidental (mas, também, com o racismo). Qutb parece ter sido um cara inteligente, mas fixado na idéia de restauração do reino da Sharia, a lei islâmica. A única liberdade legítima é a Sharia, que não é governo dos homens, mas de Deus. Qutb se interessou pela idéia leninista de vanguarda política, embora, como vocês podem imaginar, fosse anti-socialista (pelos motivos errados).

Al-Zawahiri, o número 2 da Al Qaeda, organizador de uma facção da Irmandade Islâmica egípcia, a Al-Jihad, que, depois de participar do assassinato de Sadat, é destroçada pelo governo egípcio e acaba se fundindo à Al Qaeda por falta de recursos. No meio do caminho se aproxima da doutrina dos takfiri (os caras que gostavam de declarar takfir), que contornavam um velho obstáculo ao terrorismo islâmico - a proibição corânica de matar muçulmanos - dizendo que, adivinhem, quem não era 100% seguidor do negócio deles lá não era muçulmano de verdade [Comentário meu: se vocês pensarem bem, isso revoga a Sharia, pois todos os crimes podem ter punição de morte]. Zawahiri comete as maiores barbaridades do livro. Tem-se a impressão, por vezes, de que, a partir de um certo ponto, Zawahiri sequestra a Al Qaeda, e passa a controlar Bin Laden. Especialmente emocionante é que é possível que, antes da aliança final entre os dois, um agente de Zawahiri no exército americano contou aos EUA tudo sobre os campos de treinamento no Afeganistão, talvez tentando vender Bin Laden para conseguir se infiltrar na CIA.

John O'Neil, funcionário do FBI que foi um dos primeiros a levar a sério Bin Laden e a Al Qaeda, e que chegou perto de sacar o que ia acontecer no 11 de Setembro. Não fechou o quebra-cabeça - e isso é o ponto mais polêmico do livro - porque a CIA não compartilhou com sua equipe informações cruciais a respeito da reunião em que o 11 de Setembro foi planejada, nem avisou o FBI de que os terroristas já estavam nos EUA (talvez por planejar recrutá-los como agentes duplos, talvez por intermédio do serviço secreto saudita). O'Neil era um cara meio bagunceiro, mulherengo, e que perdeu uma pasta do FBI numa palestra, o que comprometeu sua carreira, e o fez deixar o FBI para ser, acreditem se quiser, chefe da segurança do World Trade Center. Após sua saída sua investigação descarrilhou. Mas o mais deprimente é que, pouco antes do 11 de Setembro, as informações começaram a fluir entre CIA e FBI, e, poucos dias antes, o quadro estava bem mais claro, inclusive com advertências dos sauditas e do um ministro do Talibã de que Osama ia atacar dentro dos EUA em breve. Por isso é que logo depois do atentado já se sabia que era coisa do Osama.

Osama Bin Laden, que aparece como um cara obcecado por ganhar prestígio entre os sauditas, e tenta fazê-lo através da jihad. Só muito depois da guerra contra os russos, onde teve participação absolutamente marginal, se torna crítico dos governos árabes da região, talvez por influência de Zawahiri. Radicaliza progressivamente, principalmente depois que o governo do Egito, que queria a cabeça de Zawahiri, força os sauditas a cortarem sua grana. É meio otário, investe em negócios que não dão em nada, é traído com certa frequência - inclusive pelo governo do Sudão, que rouba quase tudo que ele tem antes de expulsá-lo para o Afeganistão. É, entretanto, um sujeito carismático, com complexo messiânico, que garante que Zawahiri continue a precisar dele. Esperava atrair os EUA para o Afeganistão e derrotá-los como achava que derrotou os Russos (na verdade, foram os próprios afegãos que derrotaram). Atraiu, mas não recebeu o maciço apoio árabe que esperava, e parece ter ficado meio puto com isso. Criou uma fantasia para sua vida, e cada fracasso tornava mais difícil admitir a realidade. No final, é difícil saber em que acreditava.

Vale a pena seguir esses caras pelo livro: a dinâmica de progressiva radicalização dos fundamentalistas, a perda progressiva de todo escrúpulo moral, o papel da repressão egípcia na radicalização de Al Zawihiri (torturado intensamente na prisão), as oscilações de Osama (que no Sudão parece considerar a possibilidade de voltar a ser um sujeito normal), e as confusões desesperadoras entre a CIA e o FBI.

Livrão. Não ganhou o Pulitzer à toa.


2 comments:

Japajato said...

Vc tinha me falado sobre este livro, vou lê-lo em 30 prestações na FNAC :-)

Pictor said...

Uma coisa muito interessante que eu li em outro lugar, é sobre os soldados mamelucos do império otomano. Uma elite guerreira e política que vivia na condição formal de... escravos. O Historiador John Kegan diz que isso foi consequencia direta do "jeitinho turco" para contornar a proibição de muçulmano matar muçulmano. Os mamelucos não eram muçulmanos, logo podiam fazer o serviço para qualquer lado em uma guerra sucessória!